Alimentação e Comunidade



A constituição do paladar de um povo pode seguir diversos caminhos. Da simples utilização de elementos locais como animais, plantas e temperos, à mescla de hábitos, costumes e necessidade alimentares de grupos populacionais participantes de deslocamentos territoriais (como no caso das grandes navegações) completam o conjunto de fatores que determinam preferências, interdições, prescrições, associações e exclusões alimentares. A  afirmação  do  estudioso  francês  Brillat-Savarin “diz-me o que comes e te direi quem és”, confirma o ponto de vista no qual o modo de comer revela a personalidade e o caráter de um indivíduo.

Esta noção de pertencimento social também encontra fundamento quando se visualiza a natureza interdisciplinar da alimentação. Ela dialoga com as Ciências humanas, sociais aplicadas e da natureza. Envolve, portanto, mais do que mistura de ingredientes, compreende noções antropológicas e sociológicas de regras, rituais, procedências, territórios e, assim, identidades. Claude Lévi-Strauss diz que

a cozinha estabelece uma identidade entre nós, constitui o meio universal pelo qual a natureza é transformada em cultura e é também uma linguagem por meio da qual “falamos” sobre nós próprios e sobre nossos lugares no mundo.

O valor comunicativo daquilo que se come, como se come e com quem se come faz com que o indivíduo se considere inserido em um contexto sociocultural que lhe outorga identidade, reafirmada pela memória gustativa. Estes sistemas alimentares permitem que ele perceba sua distinção, se reconheça e se veja reconhecido.

A constituição de sistemas alimentares propõe a reunião de fatores de ordem ecológica, histórica, cultural, social e econômica comuns a um grupo de pessoas e que, juntos, estabelecem as relações dos homens entre si e com a natureza. No processo de construção e afirmação dessas identidades, os sistemas alimentares, como símbolos que representam elementos culturais, se transformam em marcadores identitários, adquiridos ou apropriados durante a história da construção de uma comunidade e transmitido às gerações seguintes no processo de socialização.

Perante o fenômeno da globalização, que torna homogêneo os repertórios alimentares, observa-se a necessidade crescente de afirmação da identidade de um povo. A comida, como manifestação cultural, preenche todas as condições simbólicas para valorizar e fortalecer a cultura da qual se originou e justificar a identidade de uma comunidade. As cozinhas nacionais e regionais, pautadas na memória gustativa e na utilização de ingredientes locais, consolidam e fornecem sentido à vida coletiva.

Acesse aqui o artigo completo com as referências apresentado no Congresso Internacional de Gastronomia Mesa Tendências (p.78)

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