Educação, Gastronomia e Comunidade


Aprender sobre alimentação propõe conexões diversas, construção de ideias e conhecimento humano, também propícias para a afirmação de um elo afetivo entre pessoa e o lugar, nas palavras de Tuan, ‘topofilia’, um sentimento capaz de significar essa relação para a compreensão da memória e da cultura.

Como experiência concreta pessoal, esta conexão media a experiência ambiental e espacial pois permite visualizar e sensibilizar para as inter-relações entre a alimentação e o planeta, com o propósito de fortalecer o exercício da cidadania (e seus significados culturais) com ações que promovam um desenvolvimento sustentável. Sobre essas relações, destacam Gratão e Marandola Jr :

O sabor está “enraizado” na geograficidade, ligação essencial, telúrica, homem-Terra. É assim que o enveredar-se por esse campo da Geografia parte de um fazer enraizado na valoração da paisagem e da cultura. O sabor que brota da terra, que envolve valores culturais, éticos e humanos, numa relação que ultrapassa o inventário dos conteúdos da área e de seus objetos. Uma relação que se estabelece no modo de ver o mundo, aos seus padrões objetivos, mas também às crenças das pessoas, aos significados subjetivos dos lugares.

Da relação destes conceitos, pode-se inferir que o meio ambiente natural, no qual se estabelece o estudo da gastronomia, gera uma possibilidade de aprendizado também constituída de sentimento, o que proporciona, necessariamente, proximidade e envolvimento, elementos para uma experiência que incluirá a compreensão da própria existência e da sua comunidade.

A conexão da alimentação com o meio rural produz formas únicas de habitar o mundo e traz à tona as identidades culturais.  Montanari  afirma  que  “os  valores  de  base  do  sistema alimentar  […] são como resultado e representação de processos culturais que prevêem a domesticação, a transformação, a reinterpretação da natureza”. Favorece, assim, reflexões em direção à conscientização, conservação e preservação do meio ambiente. 

A importância vital da alimentação para o ser humano reside na sua própria existência e relação com o mundo, o que viabiliza abertura para a apreensão de saberes e responsabilidades individuais e coletivas na manutenção e gestão desse bem natural. Estas se configuram desde a preocupação com a qualidade dos alimentos em si e desdobram-se nas atividades a ela relacionadas, desde o cultivo, produção, beneficiamento, industrialização, fazer culinário, venda, consumo e prática de políticas públicas.

Dentre as possibilidades de conexões de aprendizado por meio da gastronomia e que oportunizam a ampliação da percepção de mundo, responsabilidade sobre o meio rural e a comunidade, destacam-se:

– Agricultura e pecuária sustentáveis*, que se preocupem em como suas atividades impactam a fertilidade do solo, salubridade da água e do ar e condições justas de trabalho a seus trabalhadores;

– Defesa da biodiversidade*: por meio de práticas que respeitem a soberania alimentar e saberes tradicionais dos povos;

– Saúde nutricional: expressa por alimentos não processados, nem ultraprocessados;

– Fazer culinário: utilização integral dos alimentos, evitando os desperdícios. Estes trazem reflexões sobre quem compra ou produz alimentos em excesso e sua distribuição.

– Prazer, sociabilidade, convívio e compartilhamento: relação imaterial inerente à alimentação e que significa a manutenção dos conhecimentos culturais;

– Memória e identidade cultural*: permite reavaliar as perspectivas eurocêntricas e hegemônicas dando espaço ao protagonismo das culturas sobre saberes locais (mulheres, agricultores e idosos como seus principais guardiães e transmissores).

– Economia local e democracia participativa: produzir em pequena escala pois são estes que zelam pelos recursos naturais e do território sendo, assim, uma forma direta de democracia participativa pela possibilidade ativa da escolha sobre o que e como produzir alimentos;

– Políticas públicas: o direito ao alimento é o direito primário da humanidade, que é essencial para sua sobrevivência. Segundo Petrini, este direito impõe aos governos a obrigação de respeitar, proteger e permitir o acesso dos mais necessitados a esses recursos. Ou seja, implica criar políticas públicas adequadas e assistência direta em casos extremos de fome.

A educação por meio da gastronomia pode, então, contribuir não só para o seu (re)conhecimento e celebração, mas para ativar o sentimento de solidariedade e pertencimento que conduzirá ao entendimento mais estreito sobre homem-lugar, percepção de atitudes, responsabilidades e o valor da sua cidadania, conduzindo ações objetivas virtuosas para o desenvolvimento local.

* Acesse os artigos desses temas que co-orientei, completos e com referências:

Içá – Iguaria no Passado, Necessidade no Futuro. Publicado no XXI Encontro Latino Americano de Iniciação Científica da UNIVAP – SP

A Caracterização da Bananicultura em São Bento do Sapucaí: saberes gastronômicos na Serra da Mantiqueira. Publicado na Revista de História e Geografia UNISC – SC

Acesse aqui o artigo completo publicado na Revista de História e Geografia da UNISC – SC, em coautoria, e que inclui o tema educação, gastronomia e comunidade.

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