Mário de Andrade à mesa

Mário de Andrade foi um intelectual reconhecido por seus esforços em desvendar o Brasil pelo viés da cultura popular. Sua trajetória, rede de sociabilidade e projetos abrem espaço para um tema ainda pouco abordado em estudos sobre esse intelectual modernista:  a brasilidade pensadas por ele em outro elemento da cultura, a culinária. 

Desde 2017 pesquiso seu acervo no Instituto de Estudos Brasileiros, presente na Universidade de São Paulo (IEB-USP), por meio do programa de mestrado Culturas e Identidades Brasileiras. Meu objeto é sua coleção de cardápios, datados entre os anos de 1921 e 1945. Além da análise da oferta gastronômica desses menus, essa pesquisa busca iniciar a contextualização da importância da culinária brasileira na trajetória de Mário. Da direção do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo à indexação de assuntos dos livros que ele tinha em sua própria biblioteca (Fichário Analítico), Mário se aproxima de forma evidente do mundo da cozinha.

Duas importantes análises de coleções de cardápios no Brasil foram publicadas. Em 2011, a pesquisadora Lúcia Garcia apresentou em seu livro Para uma belle époque: a coleção de cardápios de Olavo Bilac, uma seleção de menus colecionados pelo poeta até 1918, de um total de mais de duzentos.

Em 2013, Francisco Lellis e André Bocatto publicam Os banquetes do imperador: menus colecionados por Dom Pedro II: receitas e historiografia da gastronomia no Brasil do século XIX. O livro versa sobre a coleção de cardápios do monarca organizados por menus de navios, menus no exterior (incluem propagandas do mate e do café) e menus no Brasil. São apresentados 130 de uma coleção de mais de 780 (na realidade, 1.050, porém, 297 foram extraviados ou furtados) que fazem parte atualmente do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 

Sem tratar exclusivamente sobre este tema de cardápios (embora mencione cinco: menu do Hotel de La Bourse – 1867; menu da Casa Paschoal – s/a; menu da Confeitaria Cailtau – s/a; menu do segundo jantar mensal da Revista Brasileira no Hotel do Estrangeiros – 1896; menu do Confeitaria Ouvidor – 1883),  a autora Rosa Beluzzo aborda um panorama gastronômico do Rio de Janeiro a partir dos textos de Machado de Assis. Intitulado Relíquias culinárias de Machado de Assis, a publicação de 2010 possui imagens e impressões da época sobre os sabores que ele experimentou e, sobretudo, intensifica a percepção das reuniões ao redor da mesa como símbolo aristocrático. Dá atenção especial a descrever receitas culinárias que eram apreciadas nesta época pela família real portuguesa.

O estudo dos cardápios da Coleção de Mário de Andrade poderá ampliar conhecimentos quanto aos contextos sociais destes encontros, à rede de sociabilidade de anfitriões e convidados, a registro de eventos importantes do grupo Modernista, além de mostrar a influência francesa presente nos modos à mesa no Brasil de princípios do século XX.

 

Em breve!

Mário de Andrade
por Tarsila do Amaral

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