As paneleiras e a Cerâmica Popular de Cunha-SP

A partir da descoberta da criação de utensílios cerâmicos pode-se afirmar que as primeiras civilizações passaram a se interessar pela atividade de cozinhar, melhorando e ativando o gosto dos alimentos em preparações realizadas dentro destes artefatos. O passado da manufatura da cerâmica popular na cidade de Cunha/SP foi caracterizado pela confecção de utensílios de cozinha diversos, moldados por artesãs historicamente reconhecidas como paneleiras.

As produções de artefatos cerâmicos segundo as técnicas das paneleiras de Cunha/SP podem ser hoje consideradas quase como extintas após o falecimento de sua última representante, no ano de 2001, Dona Benedita Olímpia, ou Dona Dita. Após este período não foram encontradas documentações sobre a continuidade deste trabalho ou sua influência nas peças dos ateliers de cerâmica artística dos dias de hoje. Se faz necessária a manutenção e a memória de saberes populares relacionados à alimentação e que igualmente remetem a um ofício de responsabilidade feminina, como verificado na maioria das tradições cerâmicas de tribos indígenas brasileiras.

As pinturas, sequência de manufatura e formas estilísticas das tradicionais paneleiras de Cunha ainda são traços possíveis de se identificar nas produções cerâmicas contemporâneas da cidade, típicos dos bairros Aparição e Orientes (exceto pela utilização do torno, rejeitado como método de confecção pelas paneleiras).

Formas estilísticas dos vasilhames confeccionados pelas paneleiras de Cunha/SP (Scheuer, 1976) *

As formas confeccionadas remetem à usos tradicionais específicos, a saber: 1 e 6 para conservação de água potável; 7 como moringa para água potável; 8 como boião/bule para leite ou café; 10 como gamelinha para lavar utensílios; 11 como frigideira para carne; 13 como panela para feijão; 14 como panela para arroz e 15 como frigideira para uso geral.

A produção de artefatos cerâmicos é um traço de desenvolvimento das civilizações e está relacionada ao acondicionamento de alimentos – potes, panelas, gamelas, cuias, moringas – e líquidos, principalmente água potável. A trajetória da produção cerâmica de Cunha/SP inclui a tradição dos métodos das paneleiras, mas que perdem espaço e ganham anonimato com as modernizações tecnológicas na área de utensílios domésticos, a intensificação de produção cerâmica das olarias e a cultura da cerâmica artística que se consolida na década de 90.  A extinção da produção cerâmica das paneleiras de Cunha/SP pode ser relacionada também à outras atividades profissionais possíveis e que sejam melhor remuneradas para essas mulheres, além da falta de iniciativas conservacionistas que identifiquem e privilegiem essa prática cultural local.

Acesse aqui o artigo completo com as referências, publicado nos Anais do II Encontro de Gastronomia, Cultura e Memória da UFRJ-RJ,  em coautoria (página 62).

*imagem ainda não atualizada no artigo pela UFRJ

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